Vardélio – Entidades Oníricas Recorrentes

Vardélio o guardião das contruções

Vardélio – O Guardião das Construções

 

Vardélio: uma figura onírica em investigação

Vardélio é o nome que atribuo a uma figura de aparência humana que encontrei em um sonho, na casa que eu estava construindo. Extremamente magro, de cabelos longos e pernas torcidas em posições impossíveis para um humano, ele percorria rapidamente as paredes do sobrado, desafiando a gravidade com a destreza de uma lagartixa.

Apesar da aparência inquietante, sua presença não me provocava medo. Embora ele não sorrisse, ele parecia alegre e transmitia uma sensação de segurança. No sonho, eu compreendia, sem ouvir palavras, que havia gostado da construção e queria permanecer ali.

O nome Vardélio foi criado para identificar esta figura no almanaque, não é uma denominação retirada de uma tradição antiga. O título “Guardião das Construções” expressa a função que associei a ele: na caracterização que elaboro a partir dessa experiência, ele guarda as construções de que gosta e nas quais é acolhido pelos proprietários. Essa condição nasce do meu relato e de sua interpretação, permanecendo aberta à comparação com outras experiências.

 

Aparência e movimentos

A figura tinha o aspecto de um homem extremamente magro, com o rosto estreito e marcado pela magreza. Sua pele tinha uma coloração humana normal, levemente bronzeada. Os cabelos eram compridos, quase até a cintura, lisos e de fios finos, mas volumosos.

Vestia uma blusa branca simples, folgada, de mangas compridas, com os punhos livres, e calças pretas largas, semelhantes a um moletom, que chegavam aos tornozelos e estavam rasgadas nessa região.

As duas pernas eram humanas, mas apresentavam uma torção que não correspondia aos movimentos possíveis de um corpo humano. Sua posição lembrava as pernas traseiras de uma esperança ou de um gafanhoto: dobras angulares acentuadas, como se as articulações obedecessem a outra anatomia. Não eram pernas de inseto, mas pernas humanas em uma configuração impossível.

Os braços permaneciam dobrados nos cotovelos, em uma postura semelhante à de alguém fazendo flexões, com o corpo próximo da superfície de apoio. A diferença era que essa superfície não era o chão: eram as paredes altas da casa.

Ele se movia muito, muito depressa pelas paredes, a aproximadamente seis metros de altura. Outro detalhe marcante era a cabeça, que eu via girar completamente, em 360 graus. A língua comprida permanecia para fora.

OBS: A reconstrução artística de Vardélio na capa deste artigo, esta baseada no meu relato onírico.

 

Meu encontro com Vardélio

No sonho, eu estava na casa que construía (um sobrado) e observava aquela figura percorrendo as paredes do sobrado. Sua movimentação era acelerada e parecia natural para ele, mesmo em lugares onde uma pessoa não conseguiria se sustentar.

Eu o percebia alegre. Não me respondia verbalmente, mas sentia que ele gostara da casa e desejava ficar ali, andando pelas paredes. Essa compreensão chegava como uma impressão mental, sem uma conversa falada.

Minha resposta foi tranquila. Disse a ele, em palavras que aqui reconstruo que, se ele havia gostado da casa, poderia ficar à vontade pelo tempo de que precisasse, como se a casa fosse sua, ele podia morar no sobrado se quisesse. Depois, saí para cuidar de outras coisas.

Embora ele não me respondesse, eu sentia um clima de aceitação vindo dele. Também me veio uma impressão forte de que ele queria retribuir protegendo o telhadista que estava trabalhando no sobrado, para que não caísse durante a execução do telhado. E de fato no dia seguinte quando o telhadista estava fazendo o telhado ele confessou que estava com medo da altura, por causa da inclinação do telhado.

Não presenciei uma queda impedida nem uma intervenção concreta: o que relato é a sensação de proteção que acompanhava sua presença. Fato é que a construção do telhado correu tranquilamente sem nenhum incidente.

A aparência de Vardélio poderia sugerir ameaça, mas a experiência que tive com ele foi de segurança e convivência pacífica. Então aqui cabe uma lição muito importante que tenho presenciado “nem toda presença ameaçadora significa uma presença hostil! e nem toda presença angelical representa uma entidade boa! cabe aqui o discernimento.”

 

Um segundo relato a recuperar

Vardélio veio para este tópico, porque alguns meses depois, meu irmão também relatou um sonho com uma figura quase idêntica a Vardélio. Atualmente, não me lembro do contexto do sonho dele, mas me lembro claramente da descrição que ele fez, até as roupas eram iguais.

Esse segundo relato permanece pendente até colher mais informações.

 

Referências culturais com semelhanças parciais

Pesquisando encontrei um paralelo de função nas crenças javanesas em espíritos ligados a lugares. A comparação se concentra no vínculo territorial e na proteção, e não permite identificar Vardélio como uma figura dessa tradição.

Em The Religion of Java, capítulo 2, Clifford Geertz registra crenças em demits e danjangs, estes também conhecidos pela grafia danyang. Sua descrição resulta de pesquisa etnográfica: documenta crenças e relatos de comunidades javanesas, sem estabelecer a existência objetiva dos seres descritos.

 

Clifford Geertz: síntese das páginas 26–27

Geertz descreve os danjangs como próximos dos demits: ligados a locais especiais, procurados para ajuda e proteção e relacionados a refeições rituais chamadas slametans. Alguns seriam antigos fundadores de aldeias, cuja atuação protetora continuaria após a morte. Outros seriam presenças do território anteriores à ocupação humana. Ele também registra guardiões secundários e crenças em uma área de influência local, inclusive pontos protetores nos limites da aldeia. Essas descrições têm variações e pertencem ao contexto pesquisado pelo autor. [1]

Nota de leitura: esta é uma paráfrase resumida, não uma tradução integral nem uma citação literal. A passagem completa pode ser consultada nas páginas 26–27 da edição indicada abaixo.

Comparação com meu relato

Elemento Crenças registradas por Geertz Relato de Vardélio
Ligação com um lugar Vínculo com locais e territórios.
Gostou da casa e queria permanecer nela.
Função protetora Ajuda e proteção aos habitantes. Senti que protegeria a obra e o telhadista.
Relação com as pessoas Pedidos de ajuda e reciprocidade ritual. Houve acolhimento e aceitação silenciosa, sem ritual relatado.
Identidade anterior Alguns são fundadores falecidos. Não identifiquei uma história humana anterior.
Aparência e movimentos A passagem não descreve a combinação vista no sonho. Magreza extrema, pernas torcidas, movimento pelas paredes e giro completo da cabeça.

A coluna sobre as crenças javanesas resume a referência [1]. A comparação com Vardélio é uma interpretação feita para este registro.

O ponto de aproximação é a ideia de uma presença protetora associada a um lugar e à relação com seus habitantes. A condição de gostar da construção e ser aceito pelos proprietários pertence à caracterização de Vardélio; não foi estabelecida como regra javanesa pela fonte consultada.

 

O que permanece em aberto

A experiência descrita aconteceu em um sonho no mundo onírico. A percepção de comunicação mental, alegria e intenção protetora faz parte da maneira como vivenciei esse encontro. Não sei qual seria a origem da figura nem se a função que lhe atribuí se repetiria em outras situações.

Também permanecem desconhecidos a data exata do sonho, sua duração e outros detalhes não recuperados neste registro. Essas lacunas não serão preenchidas com elementos inventados.

A passagem etnográfica consultada não oferece uma correspondência específica para a combinação de roupas, pernas humanas torcidas como as de um gafanhoto, língua exposta, cabeça girando 360 graus e movimento rápido pelas paredes. O paralelo cultural é relevante para a comparação, mas não comprova uma origem externa nem uma identidade compartilhada.

Minha investigação permanece aberta à possibilidade de uma presença com existência própria e à análise de imagens produzidas pela mente, memórias e influências culturais. Novos registros poderão ampliar, modificar ou limitar as associações feitas aqui.

 

Compartilhe sua experiência

Você já encontrou uma figura semelhante? Descreva sua aparência, roupas, tamanho, movimentos, comportamento e o contexto do encontro. Informe se estava sonhando, consciente dentro do sonho, despertando ou vivenciando uma experiência que interpretou como projeção astral.

A aparência provocava medo ou transmitia outra sensação? A figura parecia ligada a uma casa, obra ou lugar específico? Houve palavras, gestos ou uma compreensão sem fala? Você observou alguma ação protetora ou apenas sentiu essa intenção?

Se tiver anotações ou desenhos anteriores a esta página, mencione isso. Registre quais detalhes já lembrava antes de conhecer o nome e a ilustração. A imagem é uma reconstrução artística do meu relato; seu encontro não precisa corresponder a ela. Semelhanças e diferenças são igualmente bem-vindas.

 

Fontes e referências

[1] GEERTZ, Clifford. The Religion of Java. Chicago: University of Chicago Press, edição de 1976. Capítulo 2, “Spirit Beliefs”, seção “Danjangs: Guardian Spirits”, pp. 26–27. Publicação original em 1960.

Nota do autor: Este almanaque busca catalogar figuras e possíveis entidades oníricas, comparar relatos e acompanhar recorrências, preservando as particularidades de cada experiência. “Entidade onírica” é uma designação de investigação, com origem em aberto.

 

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